quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Majestade do samba

Ela é a rainha em Oswaldo Cruz e Madureira;
É lá que mora o samba - arte pura e verdadeira!
Bela a exibir-se na avenida sem vaidade,
Ei-la que é do sama a senhora majestade.
Dela o manto azul que nos protege e nos guia,
Vela por nossa paz (deusa do amor e da alegria);
Vê-la é como estar aos pés da Santa Aparecida,
Portela, tu és a razão da minha vida.

Berço dos mais lindos sambas que o mundo cantou,
Tens um celeiro de bambas para o teu louvor.
Dona da mais linda história de mil carnavais,
És recheada das glórias dos teus ancestrais.

Se não foi lá que nasceu,
Foi onde o samba cresceu
E se tornou de um país
Sua genuína voz.
Minha Portela adorada,
Meu peito é tua morada,
Que tu foste coroada
Rainha por nós.

Segredo

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
És a razão final de toda vida!
Não há maior riqueza escondida,
Nem da maior doença a própria cura.

Quer-te o homem mais que à existência;
Buscam saber os sábios e alquimistas
Como a mulher se esconde às nossas vistas,
Engana credos, bruxos e ciência.

Preciso amar é para entendê-la.
Dissimulado, o veio feminino
Se mostra só para o audaz menino;

Naquela hora em que se vê estrela
Quando se veste enfim a vil mortalha:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

domingo, 25 de novembro de 2007

Soneto da eternidade

Soneto da eternidade
Tenha certeza de que a amo muito
E sempre e tanto e com total afinco,
Mesmo às vezes, quando eu só brinco
Fique-lhe claro que não sou fortuito.
Quero vivê-la e tê-la e ser-lhe tudo
Agora e sempre, até que o corpo suma;
Unir então minh’alma à sua em uma
Mesmo depois que o tempo fique mudo.
O seu amor, motivo do meu canto,
Tem o poder de estancar o sangue
E me socorre quando a alma aderna.
Por ele caio, mas logo levanto;
Sinto-me forte, embora quase exangue:
É o elixir que me dá vida eterna.

Seu sorriso

Meu amor quando sorri
Muda o humor da cidade
Espalha aqui e ali
Um ar de felicidade
Seu sorriso é como a lua
Tem influencia em tudo
Vem e ilumina a rua
Até o ser mais sisudo
Seu sorriso é de criança
Quando ouve os meus chsites
Revela a sua esperança
Mesmo nos dias mais tristes
É expressão de amor
De carinho e simpatia
E alivia a minha dor
Tira-me a melancolia
Seu sorriso é espontâneo
Não escolhe dia ou hora
E resplandece instantâneo
Como o sol nasce com a aurora
Seu sorriso é como a luz
Que a escuridão descobre
É farol que me conduz
Por um caminho mais nobre

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Liberdade eterna

A poesia é livre como um náufrago numa ilha deserta.
Pode fazer tudo o que quiser, mas não tem a quem contar.
Se alguém não chega à ilha, o poema, para ouvir o que ele tem a dizer
Lá ficará para sempre, preso à sua liberdade eterna.
A poesia é um condenado que já cumpriu sua sentença, mas não deixa sua cela por não ter quem vá buscá-lo.
Podem prendê-lo em cárceres estéticos,
Amarrá-lo em correntes formais,
Exilá-lo em torres de marfim;
Nem assim o verso deixa de ser livre,
Porque ele escorre por entre as grades do poema
Quando alguém o lê. Dele se solta e sobe ao limbo
Onde a alma do leitor e a poesia encontram-se
Ambos libertos de seus calabouços, cárceres, celas – o corpo e o poema.
A poesia é o encontro de duas almas – a do poeta e a do leitor – sem que os dois saibam desse encontro.
A poesia é um pássaro, uma flor, um barco à vela; o poema, o céu, o jardim, o mar.

Gaveta

Enquanto espreme-se para sair
De lá do fundo um sentimento impresso,
Cava o poeta para exprimir
A lava interna que jorra no verso.

Os sentimentos movem-se na entranha
Prestes a entrar de um salto em ebulição;
E a palavra, essa via estranha,
Deve guiá-los à libertação.

Nem sempre chega ao papel bem quente
Como no interior incandescia
O sentimento - vício do poeta;

O que lhe sobra de calor se sente
Na cinza morna que a palavra fria
Embrulha e guarda dentro da gaveta.

Marília se fodeu

Eu, Marília, não sou um motorista
Que viva de guiar alheio carro;
Tenho próprio apê com bela vista
E uma janela da qual sempre escarro.

Dá-me casa-comida meu trabalho
E as calças jeans de que me visto;
Nem à novela das sete hoje eu assisto:
Ralo o dia inteiro pra caralho.

Graças, Marília bela
Graças à minha estrela.

Eu me vi outro dia no banheiro,
E reconheço que estou acabado.
Os meus vizinhos reclamam do cheiro
Que exala livre do meu conjugado.

Só pode ser eu acho do cachorro
Que racha um pouco da ração comigo
Por ser talvez o meu último amigo
Que acode e sempre vem em meu socorro.

Graças, Marília bela
Graças à minha estrela.

Já escrevi versos, letras e poemas,
Mas nada do que fiz foi para o prelo.
Meus sonhos se transformam em problemas
Porque o que faço só eu acho belo.

Amei à beça, sem correspondência
E desprezava a quem me queria;
Amar é fogo, quase uma ciência:
Mais fácil acertar na loteria.

Graças, Marília bela
Graças à minha estrela.

Por isso, minha tão bela Marília,
Ouça com atenção o que proponho:
Casa comigo, formemos família,
Pra dar à vida uma feição de sonho.

Veja lá adiante o que faz a cadela
A amamentar zelosa o seu filhote.
Quero que faça assim igual a ela
Quando algum dos nossos der-lhe o bote.

Graças, Marília bela
Graças à minha estrela.

Já que não queres, ó Marília bela,
Somar à minha pra sempre a alma,
Resta-me a morte, pois não posso tê-la
Para onde parto, sem perder a calma

Embrulho ou rasgo sonhos, sentimentos,
E vou aos poucos dando adeus à vida
Só meu cão vela os últimos momentos
Antes que venha a hora da partida.