domingo, 17 de junho de 2012

Fui ao mercado no domingo de manhã, cedinho. Catei as coisas que queria e fui ao caixa mais próximo. Coloquei as comprinhas sobre a esteira e a moça, sonolenta, do jeito que estava, ficou.
Olhei pra ela que entendeu na minha expressão o que eu perguntava. Como resposta, levantou a sobrancelha direita e entortou o lábio inferior para cima a apontar alguma coisa.
Segui a indicação e dei de cara com uma placa em que se lia isso: “Caixa preferencial para deficientes físicos, gestantes, mães com crianças de colo e idosos.”
Voltei para ela e fiz cara de “e eu com isso?”.
Ela:
- O senhor não sabe ler, não?
Disse eu com a calma que Deus me deu e que tem me mantido vivo até hoje:
- Querida, a placa informa que este caixa é preferencial para deficientes físicos, gestantes, mães com crianças de colo e idosos. PREFERENCIAL! Sabe o que quer dizer isso? Quer dizer que, entre mim e um idoso, você deve dar preferência ao velhinho. Se estivermos eu e uma grávida, é ela que você deve atender primeiro. Como não há ninguém neste caixa, além de mim, é a mim que você tem de atender, está bem?
Ela, contrariada, chamou o gerente, mostrou a placa, apontou para mim e fez lá as queixas que achava justas. Repeti as explicações ao gerente que sem entender bem o que eu dissera, mandou que ela me atendesse o que ela fez com a maior má vontade deste mundo.
Fiquei na ponta da esteira agarrando os produtos que ela registrava e arremessava na minha direção.
Ao terminar, voltei a ela e disse:
- Caso você só queira registrar as compras dos chamados portadores de necessidades especiais, peça ao seu gerente que escreva na placa, em lugar do adjetivo PREFERENCIAL um outro adjetivo: EXCLUSIVO!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

LEMBRANÇAS DO MEU PAI
No meio da década de 60 do século passado, meu pai, bilheteiro do quadro móvel da ADEG, hoje SUDERJ, me levava para o Maracanã antes de as partidas começarem. Chegávamos por voltas das 14h30. Ele me instalava num canto da Tribuna de Imprensa ou das cadeiras, sob as vistas de algum guarda conhecido, e ia trabalhar.
Eu ficava lá sozinho, assistindo aos jogos. Primeiro, os aspirantes ou o jogo preliminar e, em seguida, o chamado "jogo de fundo", o das 17h. Antes do fim do primeiro tempo da partida principal, meu pai reaparecia e me perguntava o que eu tinha visto. E eu, repórter mirim, fazia a resenha. Ele, orgulhoso, chamava uns conhecidos para me ouvirem os comentários. Depois, para comprovar minha inteligência ou esperteza, fazia o teste final. Apontava para o gramado e perguntava: - Quem é aquele lá? Eu dizia sem pestanejar: - É o Gérson! - E aquele, voltava ele. E eu, na lata: - Jairzinho! Não satisfeito, perguntava sobre os craques de outros times. Eu nem titubeava: - Liminha! Denilson! Zanata!
O grupo aprovava, alguns faziam elogios, e voltavam todos para as suas funções e eu para o jogo.
Desfilaram diante dos meus olhos, naqueles jogos inesquecíveis, por seus clubes ou pela seleção canarinho, os maiores craques do futebol brasileiro da época. Vi Paulo César, os dois Edus, o do Santos e o do América, Dirceu Lopes, Almir, Tostão, Rivelino, Nei, Afonsinho, Rogério, Zequinha, Aladim, Carlos Alberto e o maior de todos: Pelé.
Naquelas tardes imortais, testemunhei gols e jogadas espetaculares, guardados em detalhes na minha videoteca interior, misturados aos poemas, letras de músicas e trechos de romances que decorei ao longo da vida. Nas noites de insônia e falta de inspiração, revejo em slow motion, no DVD da memória, esses lances que me marcaram e que são uma forma de lembrar e homenagear meu pai, que me proporcionou esse presente que hoje é passado.
Foi ele que apresentou, também, Ataulfo Alves, Noel Rosa, Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Cartola, Geraldo Pereira, Ciro Monteiro e Nelson Cavaquinho, nas vezes em que andávamos pelas ruas dor Rio para poupar a passagem.
Mas isso já é uma outra história.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Samba exaltação à Unidos da Tijuca

Fiz este samba exaltação à Unidos da Tijuca no carnaval. Explico.
Concorro na escola com meus sambas de enredo há seis anos e, a cada derrota, prometo a mim mesmo que vou largar disso e que nunca mais desfilo pela azul e amarelo do Borel. Quando me vi no meio do sambódromo, este ano, emocionado com a apresentação que fazíamos, me veio o primeiro verso da letra abaixo, que completei em casa, no início da madrugada da segunda-feira de carnaval.
Espero que goste.

EXALTAÇÃO À TIJUCA
Eis-me de novo em plena passarela.
Todo garboso, assim, eu vou
Desfilar meu amor por ela,
A mais linda flor do meu jardim,
Estrela a brilhar pra mim,
Não existe assim tão bela.
Ela nasceu na encosta do Borel
Por onde esparramou-se o céu
Em forma de aquarela.
É lá sua morada verdadeira,
Onde tremula a sua bandeira azul e amarela.

Unidos da Tijuca, vanguarda e tradição,
Na pura cadência bate o meu coração;
Guardo na memória desfiles imortais
Que mudaram a história dos carnavais.

Sou Tijuca e nunca tive amor igual.
É pra sempre essa paixão que nasceu no carnaval.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Dança de salão

A moça gira em torno do par
Que a conduz por espaços vazios
E, como um artista a manipular
Marionete, mas só que sem fios,

Andam e param e, sem combinar,
Ela se joga e ele a segura;
Flanam por sobre o assoalho, no ar,
Tornam um só, na harmonia mais pura.

Conforme a música, o par se desfaz.
Órfãos, procuram reatar o nó;
Ela se atira e fatal rodopia.

Ele a absorve e a toma por trás;
Que se encolhe e os dois são um só
Corpo inerte ao fim da melodia.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Língua

A língua me fotografa.
Revela com sua tinta
Minha alma feita em palavra.
Aquilo que sinto pinta.

Eu sou o que vira frase.
O tanto que sai na língua
Escapa e ao mundo dá-se.
O resto aqui dentro míngua.

Desenho em palavra escrita
Um mapa, torto caminho
Para que (Deus não permita!)
Não morra eu aqui sozinho.

O verso me denuncia,
A todos diz ao que vim;
Só sobrevive em poesia
O que escapa de mim.