sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Capítulo 1 - O Diário Carioca



O jornal ocupava os quatro andares do prédio na rua da Relação, no centro do Rio. No andar térreo, nos fundos, ficava a gráfica. Na frente, a recepção e a seção de prêmios do jornal.
A redação ocupava todo o segundo andar, com mesas tomadas por papéis, máquinas de escrever e telefones. A editoria ficava no terceiro piso, junto com a central de apuração e os terminais de telégrafo, os aparelhos de tv, os rádios ligados em várias estações, e o rádio-amador ligado na freqüência da polícia.
O último andar abrigava a administração, a diagramação e a direção geral do jornal, numa sala ampla em que todas as manhãs aconteciam as reuniões de pauta e, no final do expediente, as reuniões administrativas.

No prédio havia um entre e sai de pessoas, funcionários, anunciantes, repórteres, visitantes, gente que queria a todo custo reaver algum exemplar perdido e que, por isso, deixara de acumular selos que davam prêmios os mais estapafúrdios (ingressos para jogos de futebol, geladeiras, ventiladores, panelas de pressão, ferros elétricos, televisores, rádios de pilha, faqueiros, bolas de futebol, guarda-roupas, bonecas, jogos de cama e mesa, cortes de cabelo, etc) e os ganhadores das diversas promoções efetuadas pelo jornal.

A garagem abrigava apenas três carros de reportagem, nas piores condições, além dos carros do editor e diretor-geral do jornal e de algum convidado ou visitante ilustre.

O jornal fora adquirido em estado pré-falimentar por Henrique Abujamra, um empresário com aspirações políticas, que o transformara em apenas dois anos num dos mais lidos da cidade. Seu público era formado basicamente por trabalhadores e gente dos subúrbios que o compravam atraídos pelo preço e pelas manchetes escabrosas de seqüestros, crimes bárbaros, denúncias políticas sem comprovação, fofocas sobre artistas e a alta sociedade e as fotos impactantes de decapitados, esquartejados, de horríveis acidentes automobilísticos ou ferroviários, sempre com muito sangue e vísceras à mostra na primeira página.

Outro expediente que impulsionara as vendas de O Diário Carioca eram as diversas promoções que o jornal fazia e que obrigavam os leitores a comprar seus exemplares diariamente, num processo pioneiro de fidelização de clientes.

Apesar de tudo, as dívidas cresciam. Parte delas com advogados, contratados para defender o jornal ou seus editores das acusações sem provas contra políticos ou pela invasão de privacidade de artistas do rádio, da tv e do cinema e de membros do high society carioca. Não eram raras, por exemplo, as vezes em que alguém tentava invadir a redação para tomar satisfações com algum repórter ou com o próprio editor e dono do jornal. Um figurão da elite, ofendido em sua honra por conta de notícias maliciosas envolvendo sua senhora e um artista da tv, invadiu o prédio e, antes que pudesse ser impedido pelos seguranças, atirou em Henrique Abujamra, que estacionava seu carro na garagem. Por sorte, o “Paladino da Ralé” escapou sem um arranhão do atentado, que ele soube bem explorar, com matérias sensacionalistas, nas semanas seguintes.

Outras dívidas advinham de acordos não cumpridos com patrocinadores e fornecedores dos prêmios que o jornal distribuía diariamente, sem controle e sem critério, .

Apesar disso, Abujamra acreditava que se manter nessa linha era o caminho certo e inquestionável para realizar sua missão. Seu propósito era político: tornar-se “a trombeta dos pobres”, “o representante do povo”, “a voz dos desassistidos”, “o guardião da moral e da ética” para que, dali a dois anos, pudesse se candidatar a um cargo eletivo, quem sabe até no executivo. Dependia seu plano do quanto barulho conseguisse fazer e do quanto isso lhe renderia dividendos políticos, pois não eram poucas as ofertas de filiação a partidos que recebia bem como os pedidos de acordo para que essa ou aquela notícia deixasse de ser publicada ou fosse ainda mais enfatizada. Havia até os que o procuravam para oferecer denúncias contra adversários. Tudo era negociado no quarto andar do prédio – apoio ou ataque a esse ou aquele político – ou em restaurantes discretos do centro da cidade.

Nesse ambiente é que trabalhava, desde a fundação, havia vinte anos, Atanásio Silva.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O ASSASSINATO DA GAROTA DE IPANEMA

PRÓLOGO


Virgínia estava deitada de bruços no sofá da sala, onde ficara prostrada após a violenta discussão que tiveram. Aquilo passara dos limites. Não admitiria de maneira alguma em sua vida um homem que levantasse a mão para ela. Ele passara dos limites. Até aquele momento, não sabia como conseguira que ele fosse embora. Chegara a pensar o pior, em ter que pedir ajuda aos vizinhos, chamar a polícia, gritar por socorro. Era o fim. Não queria mais vê-lo nem pintado de ouro.
Pensava nisso quando ouviu passos atrás de si, sorrateiros como de um gato. “É ele de novo!”, pensou assustada. Ao perceber a aproximação, pulou célere do sofá e ficou de pé.
- O que você faz aqui? Quem te deu ordem de entrar? Eu vou chamar a polícia, seu cafajeste.
Antes que terminasse de falar, ele pulou em cima dela. 
Virgínia só teve tempo de arremessar-lhe um cinzeiro que avistara sobre a mesinha da sala e tentou correr para a porta do apartamento, mas ele impediu-lhe a passagem, cercando-a sem tirar os olhos enfurecidos dela, como um predador encara a sua vítima.
Ela correu para a varanda, jogando sobre ele o que encontrava ao alcance da mão. Até que se viu encurralada no parapeito de vidro que a separava da imensidão. Apavorada, não conseguiu gritar como pretendia. Por puro reflexo, ainda conseguiu aplicar-lhe uma joelhada que o acertou bem nos ovos. Imediatamente depois, sentiu um impacto fortíssimo no seu queixo que a arremessou violentamente contra o parapeito de vidro da varanda que se espatifou com o impacto do seu corpo. Antes que o sangue começasse a escorrer de sua boca com o maxilar quebrado, sentiu a dor de um corte profundo em suas costas e a falta de apoio para o seu corpo. Ela percebeu apavorada que não tinha em que se agarrar para evitar a queda, e a iminência da morte a desconcertou. A queda começou lenta e pareceu durar horas, em que toda a sua vida passou aceleradamente diante de seus olhos que não viam as janelas dos andares inferiores passarem vertiginosamente à sua frente.
O impacto foi surdo e Virgínia não sentiu a dor dos vários ossos que se quebraram ao mesmo tempo com a queda do 13º andar do seu prédio. Os olhos abertos davam ao seu rosto a mesma expressão de pavor, agora  congelada, que adquirira ao se dar conta de que mergulharia para a morte inapelável.
Lá em cima, seu assassino após alguma hesitação, saiu do apartamento como entrou, sem ser visto e sem deixar pistas.

domingo, 17 de junho de 2012

Fui ao mercado no domingo de manhã, cedinho. Catei as coisas que queria e fui ao caixa mais próximo. Coloquei as comprinhas sobre a esteira e a moça, sonolenta, do jeito que estava, ficou.
Olhei pra ela que entendeu na minha expressão o que eu perguntava. Como resposta, levantou a sobrancelha direita e entortou o lábio inferior para cima a apontar alguma coisa.
Segui a indicação e dei de cara com uma placa em que se lia isso: “Caixa preferencial para deficientes físicos, gestantes, mães com crianças de colo e idosos.”
Voltei para ela e fiz cara de “e eu com isso?”.
Ela:
- O senhor não sabe ler, não?
Disse eu com a calma que Deus me deu e que tem me mantido vivo até hoje:
- Querida, a placa informa que este caixa é preferencial para deficientes físicos, gestantes, mães com crianças de colo e idosos. PREFERENCIAL! Sabe o que quer dizer isso? Quer dizer que, entre mim e um idoso, você deve dar preferência ao velhinho. Se estivermos eu e uma grávida, é ela que você deve atender primeiro. Como não há ninguém neste caixa, além de mim, é a mim que você tem de atender, está bem?
Ela, contrariada, chamou o gerente, mostrou a placa, apontou para mim e fez lá as queixas que achava justas. Repeti as explicações ao gerente que sem entender bem o que eu dissera, mandou que ela me atendesse o que ela fez com a maior má vontade deste mundo.
Fiquei na ponta da esteira agarrando os produtos que ela registrava e arremessava na minha direção.
Ao terminar, voltei a ela e disse:
- Caso você só queira registrar as compras dos chamados portadores de necessidades especiais, peça ao seu gerente que escreva na placa, em lugar do adjetivo PREFERENCIAL um outro adjetivo: EXCLUSIVO!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

LEMBRANÇAS DO MEU PAI
No meio da década de 60 do século passado, meu pai, bilheteiro do quadro móvel da ADEG, hoje SUDERJ, me levava para o Maracanã antes de as partidas começarem. Chegávamos por voltas das 14h30. Ele me instalava num canto da Tribuna de Imprensa ou das cadeiras, sob as vistas de algum guarda conhecido, e ia trabalhar.
Eu ficava lá sozinho, assistindo aos jogos. Primeiro, os aspirantes ou o jogo preliminar e, em seguida, o chamado "jogo de fundo", o das 17h. Antes do fim do primeiro tempo da partida principal, meu pai reaparecia e me perguntava o que eu tinha visto. E eu, repórter mirim, fazia a resenha. Ele, orgulhoso, chamava uns conhecidos para me ouvirem os comentários. Depois, para comprovar minha inteligência ou esperteza, fazia o teste final. Apontava para o gramado e perguntava: - Quem é aquele lá? Eu dizia sem pestanejar: - É o Gérson! - E aquele, voltava ele. E eu, na lata: - Jairzinho! Não satisfeito, perguntava sobre os craques de outros times. Eu nem titubeava: - Liminha! Denilson! Zanata!
O grupo aprovava, alguns faziam elogios, e voltavam todos para as suas funções e eu para o jogo.
Desfilaram diante dos meus olhos, naqueles jogos inesquecíveis, por seus clubes ou pela seleção canarinho, os maiores craques do futebol brasileiro da época. Vi Paulo César, os dois Edus, o do Santos e o do América, Dirceu Lopes, Almir, Tostão, Rivelino, Nei, Afonsinho, Rogério, Zequinha, Aladim, Carlos Alberto e o maior de todos: Pelé.
Naquelas tardes imortais, testemunhei gols e jogadas espetaculares, guardados em detalhes na minha videoteca interior, misturados aos poemas, letras de músicas e trechos de romances que decorei ao longo da vida. Nas noites de insônia e falta de inspiração, revejo em slow motion, no DVD da memória, esses lances que me marcaram e que são uma forma de lembrar e homenagear meu pai, que me proporcionou esse presente que hoje é passado.
Foi ele que apresentou, também, Ataulfo Alves, Noel Rosa, Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Cartola, Geraldo Pereira, Ciro Monteiro e Nelson Cavaquinho, nas vezes em que andávamos pelas ruas dor Rio para poupar a passagem.
Mas isso já é uma outra história.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Samba exaltação à Unidos da Tijuca

Fiz este samba exaltação à Unidos da Tijuca no carnaval. Explico.
Concorro na escola com meus sambas de enredo há seis anos e, a cada derrota, prometo a mim mesmo que vou largar disso e que nunca mais desfilo pela azul e amarelo do Borel. Quando me vi no meio do sambódromo, este ano, emocionado com a apresentação que fazíamos, me veio o primeiro verso da letra abaixo, que completei em casa, no início da madrugada da segunda-feira de carnaval.
Espero que goste.

EXALTAÇÃO À TIJUCA
Eis-me de novo em plena passarela.
Todo garboso, assim, eu vou
Desfilar meu amor por ela,
A mais linda flor do meu jardim,
Estrela a brilhar pra mim,
Não existe assim tão bela.
Ela nasceu na encosta do Borel
Por onde esparramou-se o céu
Em forma de aquarela.
É lá sua morada verdadeira,
Onde tremula a sua bandeira azul e amarela.

Unidos da Tijuca, vanguarda e tradição,
Na pura cadência bate o meu coração;
Guardo na memória desfiles imortais
Que mudaram a história dos carnavais.

Sou Tijuca e nunca tive amor igual.
É pra sempre essa paixão que nasceu no carnaval.

segunda-feira, 10 de maio de 2010